quinta-feira, 29 de março de 2018

Facebook: o cliente é o produto *

A propósito do “escândalo” da partilha pelo Facebook de dados pessoais dos utilizadores, vale a pena irmos um pouco mais longe e perceber, muito provavelmente, que o verdadeiro problema… somos nós.

 
Por esta altura, quem lê estas linhas já deve estar a par das últimas notícias sobre o Facebook, relativamente à partilha de dados pessoais com uma empresa que os terá usado, entre outras coisas, para tentar interferir nos resultados das últimas eleições nos EUA. 

Não é exatamente sobre isso que pretendo escrever. Para se colocar a par do que se passou pode espreitar aqui. Mas leia também este artigo, do final de 2017, para perceber que nada disto é absolutamente novo. 

O que se passa é que vender os nossos dados pessoais é o negócio do Facebook – desde sempre. O “escândalo” de que se fala não se prende nem com algum “hack” (acesso não autorizado aos dados, feito através de alguma brecha de segurança) nem com o facto de o Facebook recolher os nossos dados (algo que consentimos explicitamente ao criarmos uma conta nesta rede social).

A “breach” (“brecha”, à letra) de que os media têm falado é, na realidade uma “breach of confidence”. O que foi quebrada não foi a segurança do sistema informático (embora isso possa ter acontecido anteriormente e noutras circunstâncias); o que foi quebrada foi a “confiança” que o Facebook tinha depositado em quem tinha garantido que não iria usar os dados para os efeitos que efetivamente usou e que os apagaria quando tal lhe foi pedido.

E claro que houve outra coisa que foi quebrada (e que agora Mark Zuckberg se apressa a tentar emendar): a confiança entre o Facebook e os seus utilizadores.

O cliente ou o produto

Mas vamos voltar aos que nos interessa. Como é que chegámos aqui? Bem, na realidade, a culpa de tudo isto é… nossa. E quando digo “nossa” digo que é minha, sua, de todos em geral e de ninguém em particular.

Porquê? Simples: porque nesta economia digital em que vivemos, ninguém quer pagar por nada. E como as coisas não são grátis (quanto é que pensa que custa manter e gerir a infraestrutura de TI necessária a manter o Facebook em funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias do ano?), o pagamento em vez de ser feito diretamente – através de uma taxa de subscrição, por exemplo – é feito de forma indireta. Que, neste caso, significa “pagar” através do valor representado pelos nossos dados.

Na prática, também não tem de se preocupar demasiado, porque o Facebook e os seus clientes (não, o cliente não é você!, já lá irei) não querem tanto saber o nosso nome, morada e telefone, mas sim quais as nossas preferências e o nosso perfil demográfico – idade, género, profissão, preferências, área geográfica, escalão remuneratório...

Só para os mais distraídos é que isto é novidade. Há um velho adágio que diz que «na economia digital, se não és o cliente, és o produto». Isto, na melhor das hipóteses, porque por vezes somos ambos ao mesmo tempo!

Ora nós, utilizadores de redes sociais (e motores de busca, e sistemas de webmail, e de comércio eletrónico, e…) somos definitivamente o produto. O cliente, para o Facebook, são os seus anunciantes, os quais beneficiam do facto de o Facebook saber quem somos e do que gostamos, de forma a oferecer o melhor retorno possível face ao investimento em publicidade.

Na maioria dos casos, isso até beneficia os utilizadores – não prefere ver anúncios relevantes para si em vez de ser bombardeado, como na TV, com mensagens que não lhe interessam? É essa a principal diferença entre a publicidade veiculada pelos “velhos media” face à que nos é oferecida pelos canais digitais.

E a culpa é…

Mas voltemos à “vaca fria”. De quem é a culpa disto tudo? É fácil apontar o dedo ao Facebook, que efetivamente traiu a confiança de (tanto quanto se sabe) 50 milhões dos seus cerca de dois mil milhões de utilizadores. E sim, devemos preocupar-nos com isto e exigir, tanto quanto possível, que nada disto volte a acontecer.

Mas o problema com as redes sociais é que funcionam tanto melhor quanto mais de nós partilhamos com os outros. E somos nós que começamos por dar de mão beijada ao Facebook todos os dados que a empresa depois usa – idealmente para fins legais e legítimos.

Até podemos criar um perfil falso com um nome inventado e uma foto roubada de uma pesquisa do Google. Mas o Facebook não se importa. O que o Facebook pretende – e é isso que tem valor – é saber que a pessoa atrás desse perfil (mesmo que inventado!) tem preferência por determinadas marcas, certas inclinações políticas, gosta das marcas a, b ou c, etc. No final do dia, essa “pessoa”, seja ela real ou inventada por si, irá mesmo consumir ou adquirir algo e, para o Facebook e os seus clientes, é isso que interessa. É isso que tem valor.

Podemos ter uma conta no Facebook e evitar a recolha de dados sobre nós? Sim, se deixarmos de “gostar” de páginas, de fazer “likes” em posts de amigos e conhecidos, de responder a outros, se deixarmos de usar o Messenger, de criar (e ir a) eventos, se evitarmos responder a sondagens e “passatempos”, se não jogarmos... Ou seja: é possível ter uma conta no FB e evitar a recolha de dados se... praticamente não usarmos a conta para nada.

[veja o final deste artigo para saber o que pode realmente fazer para minimizar o que o Facebook sabe sobre si]

Porque a alternativa é... Bem, neste momento, alternativa ao Facebook não existe sequer. A “alternativa” é mesmo apagar a conta, caso estejamos a sentirmo-nos desconfortáveis sabendo aquilo que já devíamos saber, que é a inevitabilidade da recolha, tratamento e partilha de dados do Facebook com terceiros – sejam esses terceiros os seus anunciantes ou empresas de perfil duvidoso e intenções pouco transparentes.

No fundo, a alternativa a estar no Facebook desta forma é uma e só uma: pagar para usar. E ponha o dedo no ar quem gostaria de optar por essa opção... se existisse sequer.

E aqui temos outro problema: quanto custaria pagar por aquilo que agora é financiado pela publicidade, a qual por sua vez é paga ao Facebook por anunciantes que tiram partido do quanto a rede social sabe sobre nós? Muito mais do que pensa. Conheço uma empresa portuguesa que possui um website de elevado tráfego “pago” com banners de publicidade geridos pela Google. Ela já fez as contas e concluiu que mesmo cobrasse a todos os visitantes (ou até mesmo apenas uma parte deles) uma pequena taxa anual para acesso ao site sem publicidade ia perder dinheiro. E muito.

Não quero ser chato e concluir dizendo que não há nada fazer. Haver há, começando por efetivamente usar os controlos de privacidade do Facebook e evitando partilhar o que não queremos mesmo partilhar.

Mas já agora, não tranquem a porta deixando as janelas abertas: então e a Google? Ou ainda não perceberam o que significa estarem “logged in” para poderem aceder aos vossos “Favoritos” no Chrome em qualquer dispositivo? Ou manterem a conta do Gmail ligada enquanto fazem pesquisas? Ah, e ainda não perceberam também que o conteúdo do que têm no Gmail é usado para “targeting ads”?

Não se esqueçam, de passagem, de cancelar também as contas de Netflix, do Spotify e, de passagem, desligarem o “modo inteligente” da set-top box que o vosso ISP lá pôs em casa para verem TV de forma “personalizada”. Fazer compras na Amazon? Esqueçam lá isso. Cartões dos supermercados? Nem pensar! E quanto ao acesso WiFi grátis que uma conhecida rede de cinemas em Portugal irá disponibilizar aos seus clientes, é melhor pensar duas vezes no que significa “grátis”…

A única forma de evitarmos tudo isto é ficarmos “off grid” e irmos viver nas montanhas – mas sem rede celular, claro! Como isso não me parece muito prático, o melhor mesmo é ir usando bom senso, partilhar só o que faz sentido, usar os serviços “grátis” de forma regrada e, sempre que possível, optar por serviços equivalentes, mas pagos.

Porque, repitam depois de mim, “se não somos o cliente, somos o produto”. Sempre.

O que fazer para se proteger

Facebook.
Não é preciso deixar o Facebook para usar a rede social de forma mais segura. Aponte o browser para https://www.facebook.com/safety/tools e altere as definições da sua conta.
Evite usar a conta do Facebook para se registar noutros serviços – só irá facilitar a partilha dos dados com terceiros…

Google.
Aproveite o balanço e faça o mesmo com o Google. Em https://privacy.google.com/take-control.html encontra ferramentas que lhe permitem limitar a forma como o Google recolhe e partilha a sua informação.
Evite usar o motor de pesquisa Google quando está ligado como uma conta Gmail, uma vez que a pesquisa que realizou vai ficar associada à sua conta. O mesmo acontece com uma conta Outlook.com ou Live.com quando usa o Bing. Se é mesmo paranoico, passe a usar um motor de busca como o DuckDuckGo.com, que não recolhe dados pessoais.

Browsers.
O seu browser possui uma opção chamada “Do Not Track” (https://en.wikipedia.org/wiki/Do_Not_Track). O mais provável é estar desligada. Ative-a de forma a limitar os dados partilhados pelo seu browser com os sites que visita. Veja como no Chrome (https://support.google.com/chrome/answer/2790761), Edge e IE (www.online-tech-tips.com/internet-explorer-tips/send-do-not-track-and-enable-tracking-protection-in-ie-11-edge) e Firefox (https://support.mozilla.org/pt-PT/kb/como-ativar-funcionalidade-nao-monitorizar-do-not-track).
Os browsers têm também modos “seguros” de navegar. O problema é que estes modos (que, entre outras coisas, desligam os “cookies”) por vezes resultam numa experiência de navegação medíocre, porque estamos a negar aos sites informação básica que eles por vezes necessitam para personalizar a nossa experiência…

Email.
Use contas de email “descartáveis” para se registar em sítios onde tem dúvidas sobre o destino dos seus dados pessoais. Crie uma conta alternativa no Google, Yahoo!, Outlook.com ou Mail.com (ou outro do seu agrado) e use-a para esse efeito.

Pague.
Alguns serviços (e jogos) são do tipo “freemium” – ou seja, têm uma versão grátis (“free”) e outra premium. Mas se em muitos casos esta dicotomia se prende com as funcionalidades disponíveis em cada um dos modos, noutros a parte grátis é simplesmente paga com a exibição de publicidade – se não a quer ver, pague para aceder à versão premium.

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* Artigo publicado originalmente no Wintech

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O futuro do Facebook? Comércio eletrónico *



Desde a sua OPV (IPO) inicial que o Facebook tem sabido suplantar todos os obstáculos: como sustentar o crescimento perante o advento de outras redes sociais?, como aumentar as receitas de publicidade em face do crescimento dos acessos online?, como manter os seus utilizadores satisfeitos mesmo perante uma aparente multiplicidade de redes sociais…?

A todos estes desafios, o Facebook soube dar resposta reinventando-se quando foi preciso, mudando a estratégia perante alterações no mercado e, sim, comprando a concorrência e integrando-a no seu plano de negócios quando tal se mostrou necessário.

Os resultados financeiros apresentados no final de Julho mostram uma empresa capaz de bater todas as mais otimistas expectativas por parte dos investidores, que se ri perante as notícias que dizem que os seus utilizadores estão a desertar para outras plataformas – neste momento tem 1.700 milhões de utilizadores mensais ativos, mais coisa menos coisa – e que parece imparável.

Para os mais distraídos, o Facebook não se limitou a destruir o Hi Five e o MySpace – a própria Google nada pode fazer e o Google Plus, que muitos garantiam ser uma ameaça real à empresa de Mark Zuckerberg, foi totalmente repensado e reposicionado para poder sobreviver. Lembram-se do MSN, o Messenger da Microsoft que toda a gente usava… até surgir o Facebook? Foi-se. O Instagram podia ser uma ameaça? Comprado. O WhatsApp tem potencial? Já é nosso…

Entretanto, o Facebook tornou-se numa plataforma sem a qual deixámos de poder funcionar online. Usamos a nossa conta do Facebook para fazer comentários em websites; para fazer login em serviços online (e apps como o Tinder!); para falar com amigos através do Messenger; para acedermos a notícias; para programar eventos; para partilhar fotos de cãezinhos, de gatinhos, de comida (claro!), da banda preferida que fomos ver ontem à noite; para dizer a toda a gente que andámos esta manhã 10 quilómetros em não-sei-quantos-minutos… Façamos um teste: quantos dos seus familiares e amigos não usam o Facebook, direta ou indiretamente? Aposto que são bem menos do que aqueles que usam…

O futuro do Facebook
Podemos desculpar quem pensa que o Facebook já esticou a corda até onde pode e que, a partir daqui, será só a descer. Mas julgo que, pelo contrário, Zuckerberg e companhia ainda estão só a aquecer.

O Facebook que descrevi acima é o Facebook dos 1,7 mil milhões de utilizadores individuais. Mas o Facebook que gera dinheiro é uma conjugação desses utilizadores com os investimentos publicitários das empresas que apostam no Facebook.

É possível fazer campanhas de publicidade no Facebook a partir de 1 euro por dia até muitos milhões por ano. O Facebook ganha dinheiro através da promoção (paga) que as empresas fazem dos seus posts mas também de campanhas específicas – são esses os anúncios que aparecem nas nossas timelines (desktop e dispositivos móveis) e na barra do lado direito (desktop).

De certa forma, Zuckerberg sabe que há um limite para a quantidade de publicidade que o Facebook nos pode impingir – e os ad blockers são uma ameaça real. Por onde passa então o futuro do Facebook?, como irá a empresa continuar a fazer crescer as receitas? Sem querer fazer futurologia (mas colocando a cabeça no cepo e fazendo! J), penso que a resposta a essa questão são duas palavras: “comércio eletrónico”.

Vender no Facebook


Sim, hoje já é possível vender no Facebook, mas o processo não é simples. Requer apps de terceiros (como o Shopify ou o Bigcommerce) e pagamentos de fees mensais quer vendamos ou não. Não é fácil e não é barato. E por isso não vemos muitas páginas no Facebook a vender o que quer que seja.
Acontece que o Facebook quer tornar o comércio eletrónico para as empresas através da rede social tão simples como anunciar – mas com uma dupla vantagem: é uma nova (e potencialmente enorme) fonte de receita e, ao mesmo tempo, não cria entropia adicional para os utilizadores individuais.
Tal como acontece sempre que surge com algo de novo, o Facebook está a implementar esta funcionalidade de forma gradual. No entanto, não duvido por um momento que, parafraseando a conhecida frase publicitária, “é para avançar”…

O modelo de negócio está já explicado nas páginas de ajuda da rede social (aqui) e funciona de forma muito simples: a loja passa a estar acessível através de mais um separador na página da empresa sem necessidade de apps adicionais nem programação. Além disso, e ao contrário de soluções de terceiros – que bem podem dizer adeus ao negócio… – o Facebook não cobra nem pela criação nem pela manutenção da loja.

As receitas do negócio são feitas simplesmente através da cobrança de uma (pequena) taxa de transação, uma vez que um dos requisitos é que o vendedor opte pelo sistema de pagamentos da Stripe, empresa com quem o Facebook criou uma parceria em 2014.

O potencial de abertura das páginas de empresas ao comércio eletrónico é incalculável, mas imagino que será até mais interessante para pequenos negócios do que grandes marcas – estas têm os seus próprios canais de distribuição e usam o Facebook como forma de contacto com os seus fãs e nunca colocarão em causa a forma como têm o seu negócio organizado.

Contudo, estima-se neste momento que existem cerca de 50 milhões de páginas de Facebook de “pequenos negócios” e mesmo que apenas uma fração esteja interessada em vender através da rede social, é bom lembrarmo-nos que uma plataforma de e-commerce dedicada como a Etsy tem “apenas” 1,6 milhões de vendedores, um número mais do que suficiente para tornar a empresa num sucesso.

O potencial da entrada do comércio eletrónico no Facebook é tremendo e vai ser preciso uma conjugação especialmente desfavorável de fatores para que o que aí vem não seja absolutamente avassalador.

Portanto, aqui têm os meus dois cêntimos sobre o futuro da empresa de Mark Zuckerberg: preparem-se, porque o melhor ainda está para vir.


* Artigo publicado originalmente pelo autor em https://pplware.sapo.pt/informacao/opiniao/o-futuro-do-facebook-comrcio-electrnico/

sábado, 30 de julho de 2016

O melhor smartphone para jogar Pokémon Go

A menos que tenha vivido nas últimas semanas numa caverna ou tenha estado emigrado noutro planeta, é difícil não saber que o Pokémon Go é o jogo para dispositivos móveis mais popular de sempre.

Por isso este post não é sobre o Pokémon Go mas sobre uma questão não menos importante: caso ainda não possua máquina para correr o jogo, qual o smartphone que deverá comprar?

Para limitar de alguma forma o imenso universo de dispositivos por onde escolher, restringi a busca a máquinas com um valor igual ou inferior a 200€ – ou que, pelo menos, seja possível adquirir em Portugal abaixo desse valor, em loja ou online.

Ao contrário do que eu próprio imaginava quando encetei a busca (não me julguem, vá...), não encontrei muitas que ficassem dentro dos critérios que eu próprio defini. Nem sequer meia-dúzia. Na verdade... encontrei UMA!

Para quem não quer ler o resto do post, a máquina que selecionei (e acabei por comprar) é o BQ Aquaris X5, que embora tenha um preço oficial de 230 euros pode ser adquirido através da Amazon Espanha (desbloqueado, claro) por 180 euros + portes.

* * *

A busca pelo smartphone Android perfeito (e não excessivamente caro) para correr Pokémon Go provou ser mais complicada do que encontrar um Pikachu. O problema prende-se com as especificações do jogo, surpreendentemente exigentes, facto que não é absolutamente claro quando fazemos uma busca rápida pela web.

Por exemplo, no site oficial do jogo, a lista de equipamentos suportados não parece muito problemática, antes pelo contrário: ecrã com resolução 1280x720 (coisa mais do que banal nos tempos que correm); Android 4.4 ou superior (idem); uma boa ligação à Internet; e GPS. Simples, certo? Bem... Não. Sobretudo por causa dos dispositivos que não são suportados: a maioria dos tablets (mesmo que tenham a versão Android necessária), todos os smartphones baseados em processadores Intel (sim, como o Asus ZenPhone 2) e... smartphones com menos de 2 GB. Pois.

Acontece que para sabermos a limitação dos 2GB já temos de ir a outra página, à da app no Google Play. Onde descobrimos também que "a aplicação poderá não correr em determinados dispositivos, mesmo que estejam equipados com uma versão compatível do sistema operativo". Quais...? Não sabemos, mas o maravilhoso mundo das interwebs dá-nos uma ajuda

Já smartphones com processadores da Mediatek, muito embora ofereçam tipicamente menor desempenho que os mais conhecidos Qualcomm Snapdragon, parecem não ter problemas de compatibilidade. No entanto, é bom manter presente que este é um jogo exigente em termos de hardware e que quanto mais potente for a máquina eu usemos, melhor será a experiência de jogo.

* * *

O que nos traz ao elefante na sala: o giroscópio. "Mas António", ouço-vos perguntar, "hoje em dia todos os smartphones têm giroscópio!" Pois, também eu pensava. Mas a resposta surpreendente é que a maioria dos smartphones, mesmo os de gama média, não inclui giroscópio!

Ora, em rigor, a verdade é que não é necessário giroscópio para correr o Pokémon Go, muito embora eu ache inacreditável que nenhum recurso oficial mencione esta particularidade. Mas já ouviram dizer que o Pokémon Go é um jogo de realidade aumentada, certo? Ora sem giroscópio o jogo funciona, mas sem a componente de realidade aumentada. O que significa que a minha filha mais nova, em vez de ter encontrado um Pikachu logo no primeiro dia, em cima dos pastéis de nata do balcão da pastelaria Didu, tê-lo-ia simplesmente apanhado sobre um fundo verde. E todos nós sabemos que não há nada como um pastel de nata da Didu... :-)

But I digress... Ia eu a dizer que o facto de um smartphone não ter giroscópio não é crucial para correr o jogo. Mas para quem não tem um terminal compatível com o Pokémon Go e quer tirar o máximo partido da aplicação, penso que é algo que vale a pena.


* * *

Voltamos então ao princípio: não encontrei * no mercado nenhum smartphone por menos de 200 euros (que era o meu limite) que respeitasse todos os requisitos mínimos para jogar Pokémon Go, tivesse processador Snapdragon (não é fundamental, mas jogo é muito exigente em termos de hardware e tradicionalmente as máquinas baseados em processadores MediaTek tendem a não ter muitas atualizações do sistema operativo) e que também incorporasse um giroscópio entre os seus sensores.

Ou melhor, encontrei uma: o BQ Aquaris X5. Como escrevi no início, o preço oficial é de 230 euros,
mas pode ser adquirido através da Amazon Espanha (desbloqueado, claro) por 180 euros + portes. E posso também garantir que a máquina é fantástica e corre o Pokémon Go sem quaisquer problemas. Aliás, aproveitei e comprei também uma capa, que as crianças costumam ter dedos de manteiga...


* * *

"E se o meu orçamento for mais para os 100 euros do que para os 200€?" Sim, é possível jogar Pokémon Go num smartphone mais barato (desde que nos contentemos com um processador MediaTek e não exijamos que tenha giroscópio integrado). Uma possibilidade, que o website Eurogamer.net garante que funciona bem, é o Oukitel K4000 (pois, também nunca ouvi falar). Por 109€ na Amazon.es, este aparenta ser um bom negócio.


Notas finais

1. O Aquaris X5 que eu comprei na Amazon.es há duas semanas por 179,90 era novo, mas reparo agora que o preço se alterou e por esse valor só "recondicionado oficial". Novo custa agora (à data original deste post) 199 euros.

2. Caso tenha feedback deste post e surjam outras alternativas, irei mantendo aqui uma lista de dispositivos (sempre abaixo dos 200€!, por favor) compatíveis.

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* Encontrou um com características semelhantes, mas mais barato? Deixe o seu comentário e partilhe a felicidade!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Taxis vs Uber: Só os paranóicos sobrevivem *




No final dos anos 90, o recentemente falecido CEO da Intel, Andy Grove, escreveu um livro chamado “Only the Paranoid Survive”.

O livro foi construído a partir dos ensinamentos que Grove retirou da dura transição da Intel de fabricante de memórias para fabricante de microprocessadores, nos anos 80. Hoje parece ter sido uma decisão óbvia, mas na altura foi tudo menos isso – sobretudo porque a Intel retirava a maioria dos seus rendimentos da produção de RAM e a aposta nos microprocessadores parecia um tiro no escuro.

Grove chama a estes momentos na vida de uma empresa “Pontos de Inflexão Estratégica”. Trata-se de um acontecimento que pode demorar mais ou menos tempo, mas quem tem sempre a mesma característica: se a empresa não se adaptar mais ou menos rapidamente às alterações dramáticas que estão a afetá-la (ou a todo o setor de atividade em que ela se insere) acabará por morrer.
Em décadas recentes, a aceleração tecnológica tem trazido consigo muitos destes Pontos de Inflexão Estratégica. Por exemplo, em 1995 muitos foram os que vaticinaram o rápido desaparecimento da Microsoft por esta não ter imediatamente percebido o impacto que a Internet iria ter (e teria mesmo desaparecido caso não tivesse conseguido adaptar-se rapidamente, mas isso são histórias para outro dia).

Em Portugal, o impacto da Internet fez-se sentir sobretudo sobre a empresa que então tinha o monopólio da prestação de serviços de telecomunicações, a Portugal Telecom. Mais: quando os primeiros ISPs independentes surgiram no mercado[1] não existia enquadramento legal para a sua atividade: a prestação de acesso à Internet era algo completamente novo (como os novos ISP pretendiam) ou podia ser enquadrada como um mero “serviço de telecomunicações”, como pretendia PT?

No final, sabemos o que aconteceu: o quadro legal teve de ser adaptado e, ao mesmo tempo que era permitida a entrada a novos operadores, a própria PT também soube adaptar-se e oferecer serviços competitivos. O resto é História.

Vem isto a propósito do atual conflito entre os taxistas e a Uber, a empresa que entrou no mercado com o cavalo de Tróia do “car sharing” e que hoje é muito mais do que isso. Aquilo a que estamos a assistir é ao desenrolar, ao vivo e em tempo real, de um “Ponto de Inflexão Estratégico” no setor dos transportes, neste caso particular, no dos táxis.

A ironia é que nem sequer é preciso ler livros de gestão para entender o que é preciso ser feito, nem ter uma boa de cristal para adivinhar o que irá ser feito (o enquadramento legal terá de ser alterado e a Uber, e empresas similares, irá mesmo entrar no mercado, legalmente). O que é preciso entender é isto: as regras mudaram – mesmo que as leis que as definem levem mais tempo a mudar – e a onda de mudança é inexorável.

Para o setor dos táxis, só há uma forma de sobreviver: mudar, e depressa. Como? Há já apps no mercado que fazem pelos taxistas o mesmo que a Uber faz pelos outros, mas para isso é preciso que o setor se organize e não se disperse, porque ninguém quer ter de usar uma infinidade de apps para chamar táxis – uma só chega.

Claro que o problema para os taxistas não é apenas encontrarem uma alternativa tecnológica à Uber; há problemas – sobretudo de (má) imagem – que não se resolvem de um momento para o outro e que os protestos de rua só contribuem para agravar.

Mas há uma coisa que eu sei: nesta como noutras situações, não vale a pena lutar contra ondas tecnológicas maciças. Porque, tal como na vida real, perante uma onda das grandes ou resolvemos surfá-la ou somos esmagados por ela.
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[1] Um dos primeiros foi a Esotérica. O nome, contava à Exame Informática um dos fundadores por volta de 1996, é que «quando íamos aos bancos pedir financiamento e tentávamos explicar o que era o negócio, respondiam-nos invariavelmente que “isso é um bocado esotérico…”»

* Este artigo foi originalmente publicado pelo autor em http://pplware.sapo.pt/informacao/taxis-vs-uber-so-os-paranoicos-sobrevivem/

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Taxis vs Uber: Só os paranóicos sobrevivem *




No final dos anos 90, o recentemente falecido CEO da Intel, Andy Grove, escreveu um livro chamado “Only the Paranoid Survive”.

O livro foi construído a partir dos ensinamentos que Grove retirou da dura transição da Intel de fabricante de memórias para fabricante de microprocessadores, nos anos 80. Hoje parece ter sido uma decisão óbvia, mas na altura foi tudo menos isso – sobretudo porque a Intel retirava a maioria dos seus rendimentos da produção de RAM e a aposta nos microprocessadores parecia um tiro no escuro.

Grove chama a estes momentos na vida de uma empresa “Pontos de Inflexão Estratégica”. Trata-se de um acontecimento que pode demorar mais ou menos tempo, mas quem tem sempre a mesma característica: se a empresa não se adaptar mais ou menos rapidamente às alterações dramáticas que estão a afetá-la (ou a todo o setor de atividade em que ela se insere) acabará por morrer.
Em décadas recentes, a aceleração tecnológica tem trazido consigo muitos destes Pontos de Inflexão Estratégica. Por exemplo, em 1995 muitos foram os que vaticinaram o rápido desaparecimento da Microsoft por esta não ter imediatamente percebido o impacto que a Internet iria ter (e teria mesmo desaparecido caso não tivesse conseguido adaptar-se rapidamente, mas isso são histórias para outro dia).

Em Portugal, o impacto da Internet fez-se sentir sobretudo sobre a empresa que então tinha o monopólio da prestação de serviços de telecomunicações, a Portugal Telecom. Mais: quando os primeiros ISPs independentes surgiram no mercado[1] não existia enquadramento legal para a sua atividade: a prestação de acesso à Internet era algo completamente novo (como os novos ISP pretendiam) ou podia ser enquadrada como um mero “serviço de telecomunicações”, como pretendia PT?

No final, sabemos o que aconteceu: o quadro legal teve de ser adaptado e, ao mesmo tempo que era permitida a entrada a novos operadores, a própria PT também soube adaptar-se e oferecer serviços competitivos. O resto é História.

Vem isto a propósito do atual conflito entre os taxistas e a Uber, a empresa que entrou no mercado com o cavalo de Tróia do “car sharing” e que hoje é muito mais do que isso. Aquilo a que estamos a assistir é ao desenrolar, ao vivo e em tempo real, de um “Ponto de Inflexão Estratégico” no setor dos transportes, neste caso particular, no dos táxis.

A ironia é que nem sequer é preciso ler livros de gestão para entender o que é preciso ser feito, nem ter uma boa de cristal para adivinhar o que irá ser feito (o enquadramento legal terá de ser alterado e a Uber, e empresas similares, irá mesmo entrar no mercado, legalmente). O que é preciso entender é isto: as regras mudaram – mesmo que as leis que as definem levem mais tempo a mudar – e a onda de mudança é inexorável.

Para o setor dos táxis, só há uma forma de sobreviver: mudar, e depressa. Como? Há já apps no mercado que fazem pelos taxistas o mesmo que a Uber faz pelos outros, mas para isso é preciso que o setor se organize e não se disperse, porque ninguém quer ter de usar uma infinidade de apps para chamar táxis – uma só chega.

Claro que o problema para os taxistas não é apenas encontrarem uma alternativa tecnológica à Uber; há problemas – sobretudo de (má) imagem – que não se resolvem de um momento para o outro e que os protestos de rua só contribuem para agravar.

Mas há uma coisa que eu sei: nesta como noutras situações, não vale a pena lutar contra ondas tecnológicas maciças. Porque, tal como na vida real, perante uma onda das grandes ou resolvemos surfá-la ou somos esmagados por ela.
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[1] Um dos primeiros foi a Esotérica. O nome, contava à Exame Informática um dos fundadores por volta de 1996, é que «quando íamos aos bancos pedir financiamento e tentávamos explicar o que era o negócio, respondiam-nos invariavelmente que “isso é um bocado esotérico…”»

* Este artigo foi originalmente publicado pelo autor em http://pplware.sapo.pt/informacao/taxis-vs-uber-so-os-paranoicos-sobrevivem/

sábado, 26 de setembro de 2015

Segurança: o “efeito Windows” chegou ao MacOS (e ao Linux)

 

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Durante anos, fui dos que defendi que o Windows não era um sistema operativo intrinsecamente menos seguro que os outros ou, pelo menos, não era essa a razão pela qual todos os dias surgiam novos vetores de ataque, descoberta de novas vulnerabilidades ou novas ameaças.

O meu argumento não ia ao ponto de dizer que o Windows era mais seguro do que o MacOS, por exemplo (para sermos sinceros, foi preciso chegarmos ao Service Pack 2 do Windows XP para a Microsoft levar a segurança no desktop a sério), mas simplesmente que o MacOS não era mais seguro do que qualquer outro sistema operativo para desktops. Na realidade, há até quem alegue que é o menos seguro de todos os sistemas operativos, seguido pelo… iOS; mas para o contexto deste artigo nem precisamos de ir tão longe. Bear with me

Então porque é que o Mac batia o Windows 100 a zero em termos de ameaças? Porque o Windows bate o Mac 10 a 1 em vendas. E apesar de parecer que os hackers têm todo o tempo livre do mundo, o dia tem na verdade 24 horas: o tempo deve ser gasto a fazer coisas (mesmo que pouco legítimas) que provoquem o máximo de dano; poucos eram os que se preocupavam em tomar como alvo um sistema operativo usado por cerca de 10% das pessoas que em todo o mundo usam computadores pessoais.

Ainda assim, de vez em quando lá surgem uns problemas com Macs – sendo que de cada vez que tal acontece, percebe-se que não só os utilizadores mas a própria Apple estão mal preparados para lidar com as ameaças. Já quando o assunto é o Linux, parece não haver sequer argumento: este é – garantem-nos – um sistema operativo “à prova de bala”. Ninguém o usa como sistema operativo de desktop (à excepção, provavelmente, dos que utilizam máquinas Linux para criar malware para outras plataformas…), mas não faz mal: os vírus ali não entram!

Fast forward para 2015 e vivemos num mundo diferente. O Windows continua a ser usado pela esmagadora maioria dos utilizadores de computadores pessoais, mas a plataforma MacOS tornou-se, ainda que marginalmente, mais popular – e começa a ser vítima de cada vez mais problemas de segurança. E, quanto ao Linux, muito embora as previsões de que iria finalmente “descolar” enquanto sistema operativo desktop jamais se materializassem, algo aconteceu – algo chamado Android.

Para muitos fãs do sistema operativo criado por Linus Torvalds, o Android representa a vitória do Linux por portas travessa, uma vez que a plataforma da Google foi na verdade criada a partir do Linux. Mas, se fosse eu, não iria por aí: é que clamar que o Linux ganhou a guerra dos sistemas operativos por causa do Android traz consigo uma outra vitória menos agradável: a da falta de segurança.

Hoje, mais de 90% das vulnerabilidades conhecidas para dispositivos móveis (considerando iOS, Android, Windows Phone e “outros”) afetam dispositivos Android. Na verdade, um relatório citado pela Computerworld durante o MWC 2014, colocava esta percentagem em… quase 100%!

Onde é que eu quero chegar com tudo isto? Simples: que não há sistemas operativos 100% seguros e que a frequência, quantidade e/ou gravidade das vulnerabilidades está sobretudo relacionada com a popularidade de cada um deles. O problema, neste momento, é que o tipo de ameaças que temos hoje desde há muito que deixou de consistir em “vírus”; praticamente nenhuma das modernas ameaças de segurança modernas são vírus informáticos no sentido rigoroso do termo (no sentido de que não “infectam” ficheiros nem se “auto-replicam”). Contudo, não deixam de ser mais graves por causa disso, bem pelo contrário.

O problema tem também a ver com a forma como usamos os nossos computadores. Na esmagadora maioria dos casos (em todos, no que diz respeito a dispositivos móveis….), estamos online a partir do momento em que nos ligamos, e isso torna-nos mais vulneráveis. O nosso sistema operativo será tão seguro quanto o seu elo mais fraco e esse pode nem ser o próprio OS mas o browser, uma extensão do browser, um leitor multimédia, o interpretador de Java, o plug-in de Flash…

Há moral nesta história. E a moral é que não nos devemos sentir seguros só porque usamos o sistema operativo X, Y ou Z. A segurança vem da nossa abordagem aos perigos potenciais, das nossas práticas, da nossa atitude online, da forma como usamos os dispositivos.

É que quanto mais seguros estivermos da suposta invencibilidade do dispositivo/plataforma que usamos, menos seguros estamos na realidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O último Windows *


O Windows 10 é uma má notícia para todos os que ao longo dos últimos anos têm vaticinado que “a Microsoft está acabada”. Felizmente, é uma boa notícia para todos os outros…A propósito do lançamento do Windows 8, o então CEO da Microsoft, Steve Ballmer, disse que estávamos na presença de um lançamento tão importante para a empresa como o fora o Windows 95.

Três anos depois, a profecia não cumprida de Ballmer vai tornar-se realidade com o Windows 10. E, muito embora tudo dependa da forma como a estratégia da Microsoft for executada (no mundo dos negócios, mas sobretudo no da tecnologia, a execução é tudo), estou disposto a acreditar que estamos – finalmente – na presença de um lançamento ao nível do que foi o do Windows 95, há quase 20 anos.
 
Há boas razões para isso, mas deixo-vos aqui apenas cinco: 
  1. A estratégia da atualização gratuita. A Microsoft sabe que o tempo urge e que quanto mais depressa criar uma grande base instalada de Windows 10 mais depressa irá convencer os criadores de software – desde pequenos programadores solitários até às grandes software-houses – a subirem a bordo, melhor. Por isso, a ideia de oferecer o Windows 10 a quem quer tenha hoje o Windows 7 ou 8/8.1, inclusive, só foi surpreendente para quem não percebeu que a Microsoft teria a perder se fizesse o contrário muito mais do que os dólares que deixará de ganhar com esta abordagem.
  2. Um só Windows. Ao contrário da Google (Android/Chrome OS) e da Apple (MacOS/iOS), a Microsoft tem uma estratégia de um só sistema operativo para todos os dispositivos. Pode não parecer importante, mas é, nomeadamente porque permite as razões 3. e 4.
  3. As apps universais. A pressa da Microsoft em que todos adotem o Windows 10 é tanto mais crítica quanto esta é a versão que irá fazer pelo estratégia mobile da empresa o que o Windows 8 devia ter feito mas não fez. É que enquanto aquele pretendeu unificar a interface do Windows em todos os dispositivos, o Windows 10 leva a ideia mais longe: mais do que a interface, será o mesmo Windows que teremos em desktops, notebooks, tablets, smartphones, na Xbox One e até na Internet of Things, com o suporte para Raspberry Pi. O que é que isto significa? Significa que quem programa pode desenvolver uma aplicação que funciona tão bem num computador de secretária como num smartphone sem que tenha de gastar o dobro dos recursos no seu desenvolvimento.
  4. Continuum. O Windows 8 foi claramente um sistema operativo à espera do hardware que dele tirasse partido. Mas, nos últimos três anos, os principais fabricantes mundiais trouxeram-nos finalmente máquinas “convertíveis” que conjugam da melhor forma funcionalidades de um notebook com os aspetos práticos de um tablet. Uma funcionalidade do Windows 10 chamada Continuum permite que estas máquinas funcionem com o familiar desktop quando estão a ser usadas com um teclado físico e como um tablet com a chamada nova “interface moderna” quando se libertam do teclado. Mas a mesma funcionalidade irá permitir ainda – numa nova geração de dispositivos móveis que chegará apenas no Outono – que um smartphone possa ser ligado a um teclado, rato e monitor e que as suas “apps universais”, como o novo Office 2016 possam ser usadas como se de repente tirássemos um desktop do bolso.
  5. Windows como um serviço. É possível que a ideia mais revolucionária de todas não seja o Windows 10 em si mesmo, mas o facto de a Microsoft aproveitar esta oportunidade para transformar a forma como olhamos para o sistema operativo mais popular de sempre: esta é provavelmente a última versão do Windows. A partir de agora, o Windows passará a ser atualizado continuamente, mas não como até agora. Por um lado, estas serão atualizações automáticas e mandatórias (só os utilizadores empresariais poderão impedir que o Windows seja atualizado automaticamente); por outro, a Microsoft não se limitará a oferecer atualizações para correção de bugs e problemas de segurança. Pelo contrário, o Windows receberá continuamente melhorias que vão desde novos drivers até mais e melhores funcionalidades. E deixa de fazer sentido pensar em novas versões.
Com o que atrás ficou dito, poderá parecer que a Microsoft desistiu simplesmente de ganhar dinheiro com o Windows, de “mugir” aquela que foi até hoje a sua principal “cash cow”. Afinal, prepara-se para o oferecer a milhões de utilizadores em todo o mundo – estima-se em mais de mil milhões o potencial de máquinas que podem receber esta atualização ao longo dos próximos doze meses – e para deixar de vender upgrades.
 
Acontece porém que desde sempre que a maior parte das pessoas não compra novas versões do Windows: na esmagadora maioria dos casos, os utilizadores acedem a uma nova versão do Windows comprando… um computador novo. E, pelo menos por enquanto, não há notícias de que a Microsoft tenha decidido oferecer o Windows aos fabricantes.
 
Mas qualquer que seja a estratégia futura, uma coisa é certa: esta já não é a mesma Microsoft que lançou o Windows 8. Esta é a Microsoft que lançou o último Windows.
 
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* Artigo publicado originalmente no Wintech